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segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

A Musicoterapia e Suas Aplicações

Toda pessoa tem um ritmo interior, uma identidade sonora que a diferencia das outras. Identificá-lo e equilibrá-lo são procedimentos da musicoterapia, sendo uma alternativa no trabalho com crianças com deficiência mental.
Conta a história que dois mil anos antes de Cristo, quando o imperador da China queria saber como andavam as coisas em suas províncias, ele convocavam os músicos de cada uma delas para tocar para ele. E, de acordo com a música que vinha embalando seu povo, o imperador sabia se elas estavam indo bem ou mal. Em tempos de Internet, quando esse recurso não se faz mais necessário, paralelamente aos avanços tecnológicos, cresce a aceitação de terapias alternativas, que valorizam o lado emocional do indivíduo.
A musicoterapia, considerada uma ciência paramédica que estuda a relação do homem com o som/música, é uma delas. 'A influência fisiológica e psicológica do som no cérebro traz inúmeros benefícios à pessoa', afirma Maristela Pires da Cruz Smith, Ex-Presidente da Apemesp (Associação dos Profissionais e Estudantes de Musicoterapia do Estado de São Paulo).
Musicoterapeuta, educadora artística com habilitação em música e mestre em Psicologia Social, Maristela afirma que a música por si só é terapêutica.Segundo ela, o benefício mais comum e mais facilmente percebido é a sensação de relaxamento, de bem-estar. 'Todas as pessoas têm uma identidade sonora, um ritmo pulsando em seu interior, conseqüência dos inúmeros sons recebidos por nós.
A musicoterapia, através da pesquisa sobre a vida e o ambiente ao qual está inserido o paciente, busca identificar e equilibrar seu ritmo interno, para possibilitar uma melhora', explica. 'Um bom exemplo é o que ocorre com crianças hiperativas, em geral com um ritmo interno bastante acelerado. Primeiramente, elas são tratadas com músicas em seu próprio ritmo,para depois, lentamente, ir buscando equilibrar esse som', explica Maristela. 'Assim como em qualquer outro método terapêutico, não há prazo determinado para o tratamento, que vai depender da resposta do paciente', ressalta.
Gama de aplicações - Entre as inúmeras aplicações da musicoterapia,destaca-se o trabalho com pacientes portadores de deficiências físicas, como paralisia e distrofia muscular progressiva. As deficiências sensoriais (visual e auditiva) e as síndromes genéticas (Down, Turner e Rett) também contam com essa opção como tratamento complementar. Distúrbios neurológicos (lesões cerebrais, dislexias, disfonias, entre outros) e doenças mentais, como esquizofrenia, autismo infantil, depressões e distúrbio obsessivo compulsivo também podem se beneficiar com essa terapêutica. 'A musicoterapia pode ser aplicada desde a vida intra-uterina, pois pesquisas provaram que o feto reage ao som e, por ser estimulado desde cedo, nasce com maior capacidade de desenvolver seu potencial', afirma Maristela.
As principais pesquisas sobre musicoterapia têm sido feitas em países como Estados Unidos, França, Alemanha, Noruega, Inglaterra, Itália e Argentina, onde o uso terapêutico da música é amplamente difundido. No Brasil, nos últimos dois anos, os benefícios dessa terapia têm sido mais amplamente aceitos por fisioterapeutas, fonoaudiólogos e psicólogos. Sua aplicação tem ocorrido principalmente em entidades que trabalham com crianças portadoras de deficiência mental, como a Apae (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais) de Barueri. 'Esse trabalho começou a ser realizado por uma de nossas fisioterapeutas com crianças portadoras de deficiência mental,visual e auditiva.
Os resultados foram animadores. Por isso, também vamos passar a utilizar a música em trabalhos com fonoaudiólogos', ressalta Giovanna Aparecida de Carvalho Sales, diretora da entidade. 'A música relaxa e tranqüiliza as crianças.
Vamos usar os recursos da musicoterapia para trabalhar os processos de linguagem. A percepção corporal através da dança também fará parte do processo terapêutico. Com isso, a criança passa a ter contato consigo mesma e com o outro, é uma forma de integrá-la ao meio', acrescenta a fonoaudióloga Adriana F. de Souza Aquino, uma das responsáveis pela elaboração do projeto.
Na educação, a musicoterapia pode auxiliar no desenvolvimento psicopedagógico e em dinâmica de grupo em sala de aula. É o que vem ocorrendo com os alunos da Escola Municipal de Educação Especial de Barueri, voltada para a alfabetização de crianças e adolescentes com deficiência mental leve e moderada.
Desde o início deste ano, a disciplina Educação Musical passou a contar com recursos de musicoterapia. 'Procuro sociabilizar o grupo através da música. A resposta das crianças é uma coisa incrível. Dentro de suas capacidades, elas cantam e dançam', explica Fernanda Rodrigues dos Santos, formada em Educação Artística, com habilitação em música, e pós-graduada em Musicoterapia.
Segundo os especialistas, a musicoterapia já vem se popularizando também como alternativa terapêutica em tratamento de estresse. A psicoterapeuta Adelina Rennó utiliza os recursos da musicoterapia por meio do canto no processo terapêutico de seus clientes. 'Trabalho a voz como expressão da personalidade. É através dela que mostramos quem somos ou, muitas vezes, escondemos quem somos verdadeiramente', afirma. Doutora em psicologia e também com formação musical, Adelina foi buscar especialização para desenvolver o trabalho de cantoterapia na Alemanha. 'Dependendo da indicação, trabalho com uma ou com outra medida terapêutica. Há casos em que utilizo os recursos das duas, já que acredito tratar-se de processos terapêuticos complementares', encerra.
Em busca da cura - Além da utilização da música como processo terapêutico, há correntes de estudiosos no assunto que voltam seus interesses para a ação
curativa de determinado som. No livro O Poder Terapêutico da Música,do norte-americano Randall McClellan, o autor trata os efeitos da música sobre o indivíduo como um todo. Segundo ele, 'toda música pode alterar de algum modo nosso estado de consciência. O que não foi ainda determinado é que tipo de música afeta nossa consciência e de que modo e, particularmente, que tipo de música é mais útil para provocar os estados mais desejáveis para fins de cura'. As indagações de McClellan, doutor em Filosofia em Composições Musicais pela Eastman School of Music e também graduado no Cincinnati College Conservatory of Music, têm sido temas de inúmeras pesquisas realizadas principalmente nos Estados Unidos.
No Brasil, o interesse pelo assunto não é menor. Segundo levantamento realizado pela Apemesp ( http://www.apemesp.org ), o país conta com mais de 3000 profissionais com formação em musicoterapia. Mas isso ainda não se traduziu em investimentos e pesquisas sobre o tema.
A falta de dados também incomoda Luiz Roberto Perez, maestro formado pela Escola de Comunicação e Artes da USP (Universidade de São Paulo) e incansável estudioso do tema. 'Os efeitos da música sobre nosso equilíbrio emocional e nossos órgãos são notórios. Além do poder de cura, ela também reforça o organismo a agir contra as doenças. Mas para chegarmos a essas informações teríamos de ter pessoas empenhadas nisso, e infelizmente não temos', ressalta.
À frente do coral que montou no bairro - na Igreja Bom Pastor -, o maestro não deixa de trabalhar os recursos da musicoterapia com seu grupo. 'Junto do trabalho de voz, aplico alguns dos recursos da musicoterapia, voltados para o relaxamento e a auto-estima. A boa música terá sempre um cunho benéfico', diz Luiz, para quem o maior exemplo disso é o canto gregoriano. 'Esta música nos transporta para uma outra dimensão, quando ficamos próximos de uma entidade superior. E isto sempre fazenorme bem', encerra.
Fonte: Originalmente, este artigo estava publicado em
porém infelizmente, este endereço não é mais válido.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Problemas na escola vêm de casa?

Estudo revela que os tipos de problemas apresentados na escola pelas crianças estão diretamente ligados à dinâmica familiar


Ambientes familiares pouco equilibrados prejudicam o comportamento das crianças fora de casa. Mas um recente estudo da Universidade de Rochester, em Nova York, procurou explicar como são estes efeitos. Os pesquisadores dividiram as famílias infelizes em dois grupos: de um lado, ficam as famílias frias e controladoras e, de outro, aquelas conflituosas e intrometidas.
Foto: TV Globo/Renato Rocha Miranda
"A Grande Família" retrata confiança e respeito: modelo de família coesa
Nos três primeiros anos de escola, as crianças que convivem com o primeiro grupo – as famílias frias – têm cada vez mais problemas, que vão de comportamentos agressivos a depressão e alienação. Já o segundo grupo – famílias intrometidas – causa ansiedade e afastamento nos pequenos. “Famílias podem servir de apoio para crianças que entram na escola – ou podem ser fontes de estresse, distração e comportamentos inadequados,” declarou Melissa Sturge-Apple, coordenadora da pesquisa e professora-assistente de psicologia da Universidade de Rochester, ao site da instituição.

Com duração de três anos, o estudo examinou padrões em 234 lares que tinham filhos de 6 anos de idade e identificou três perfis de famílias: uma feliz (chamada de coesa) e duas infelizes (classificadas em não-comprometidas ou entrosadas).

Dá para reconhecer as coesas por suas relações harmoniosas, calor emocional e papéis firmes, porém flexíveis, para pais e crianças. Um exemplo deste tipo de relação é a família de Lineu e Nenê no seriado “A Grande Família”. Apesar dos problemas, eles estão sempre prontos para ajudar os filhos e têm muito amor e respeito um pelo outro.

Famílias disfuncionais

Foto: TV Globo/ Divulgação
Marta é assombrada pela filha em "Páginas da Vida": mãe controladora e fria é característica da família não-comprometida, que leva crianças à agressividade
Uma família entrosada pode estar envolvida emocionalmente e demonstrar carinho, mas também apresentar níveis altos de hostilidade, intromissão destrutiva e pouca percepção da família como um time. O filme “A Sogra”, com Jane Fonda e Jennifer Lopez, mostra uma mãe que ama o filho e se sente no direito de atrapalhar seu noivado para não perdê-lo – esta é uma família entrosada. Durante o estudo, os filhos vindos deste tipo de família entraram na escola com comportamentos parecidos aos de famílias coesas, mas com o tempo passaram a apresentar níveis altos de ansiedade e sensação de solidão e alienação. 

Já as famílias não-comprometidas são marcadas por relacionamentos frios, controladores e distantes. Um caso que ilustra este tipo de família é o de Marta (Lília Cabral), a fria mãe de Nanda na novela “Páginas da Vida” (2006). Ela desaprovou a gravidez da filha e rejeitou a neta com síndrome de Down. Crianças vindas destes tipos de família começam a vida escolar com níveis altos de agressividade e maior dificuldade para aprender e cooperar com as regras da classe – e este comportamento destrutivo cresce à medida em que as crianças avançam na escola. “Frieza geralmente gera depressão, que pode ser externada com agressividade. É como se a criança estivesse se vingando dos pais através da escola”, explica a psicopedagoga Maria Irene Maluf.

Trabalhar em equipe

Para chegar a estas conclusões, os psicólogos analisaram como os pais se relacionavam entre si, notando se havia agressividade e distanciamento, e observando suas habilidades de trabalhar como uma equipe na presença da criança. Os cientistas decodificaram a disponibilidade emocional dos pais em relação aos filhos, se ele ou ela elogiava e aprovava ou simplesmente ignorava os pequenos durante atividades compartilhadas. Os observadores também perceberam como a criança se dirigia ao pai e à mãe, notando se as tentativas de se aproximar deles eram breves e superficiais ou sustentadas e entusiasmadas.

Os autores do estudo enfatizam que outros fatores, além de família desestruturada, podem levar a comportamentos problemáticos na escola. Vizinhanças violentas, escolas despreparadas e traços genéticos também determinam se as crianças terão ou não dificuldades no aprendizado.

Resistir ao retorno pode ser só uma manha passageira ou indicar situações mais graves. Para cada caso, há uma recomendação











É hora de dar adeus aos dias de folga e voltar à rotina com aulas, tarefas de casa e trabalhos escolares. Algumas crianças estão com saudades dos colegas e das atividades, mas outras não podem nem ouvir falar em volta às aulas sem ter uma dor de barriga instantânea. Como os pais podem lidar com a criança que resiste a voltar das férias?
O primeiro passo é descobrir o que esta resistência quer dizer. "O 'não quero ir para a escola' pode ter vários sentidos", alerta a psicoterapeuta Ana Gabriela Andriani, doutora em Psicologia pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). Pode ser apenas uma recusa natural e passageira à ideia de voltar a acordar cedo, ter menos tempo para brincadeiras e mais responsabilidades - do mesmo tipo que qualquer adulto sente ao terminar as férias e encarar a volta ao trabalho.
Outras vezes a resistência se apresenta mais constante, tendo aparecido inclusive antes das férias. Nesse caso, o motivo pode estar escondido em uma mudança na rotina escolar: troca de professora, de classe ou de escola ou até mesmo ameaças de bullying. "O diálogo com a escola é fundamental", define Ana Gabriela. Só assim os pais podem entender se a resistência à volta às aulas é só manha ou se esconde algum problema mais sério.
A pura e simples manha, aliás, também pode ser acolhida. Afinal, quem é que gosta, seja adulto ou criança, de voltar das férias? "Acolher a manha não significa permitir que a criança não volte para a escola", diz Ana. Basta conversar com a criança e explicar que esta preguiça é natural, que todos sentem, mas que nem por isso podemos ficar em casa para sempre.
João David Cavallazzi Mendonça, psicoterapeuta familiar, concorda. "Precisa dar à criança o direito de sentir preguiça e sentir vontade de nao acordar - embora isso não signifique em absoluto que ela vá poder dormir até tarde e faltar às aulas".
Agendas lotadas
Não querer voltar para a escola pode ser um alerta para um problema muito comum entre as crianças de hoje: o excesso de atividades extracurriculares impostas pelos pais. A garotinha que faz balé às terças e quintas, natação às quartas e sextas e piano às segundas e sábados certamente vai sentir muita falta de um mês em que teve tanta tempo livre - um verdadeiro artigo de luxo para ela.


Dicas práticasOs pais se esquecem de que tempo livre, para uma criança, significa tempo para brincar. E brincar é essencial. "A brincadeira é fundamental para o desenvolvimento social, cognitivo, afetivo, da criatividade. A criança precisa de tempo para ser criança", ressalta a psicoterapeuta.


Para que a transição da rotina seja o mais suave possível, João sugere que os pais estabeleçam uma mudança gradual. Se a criança está dormindo mais tarde e acordando mais tarde, que tal, alguns dias antes do retorno à escola, já colocá-la mais cedo na cama - e acordá-la mais cedo também? O ideal é aproximá-la ao máximo da rotina que volta em breve, tanto em horários de sono como nos de refeições.
Incluir a criança na preparação da volta às aulas é outra ideia. "Peça ajuda para lavar a mochila, preparar os uniformes, comprar o material de reposição", indica o psicoterapeuta. Vale também ler um trecho de um livrinho ou apostila que será solicitado no segundo semester - tudo para que seu filho vá se habituando com a presença destes elementos de volta ao seu dia a dia.


http://delas.ig.com.br/filhos/meu+filho+nao+quer+voltar+das+ferias+e+agora/n1237732143167.html

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Anorexia nervosa também é doença de criança


Médicos explicam como o transtorno afeta meninos e meninas menores de 15 anos

Os 25 quilos de um menino de 12 anos da Inglaterra – e a insistência do garoto em recusar qualquer alimento por medo de engordar- trouxeram à tona que a anorexia nervosa não é problema só do mundo da moda e das passarelas. O transtorno chegou às crianças, inclusive, aos meninos.
A imprensa britânica noticiou a batalha do menino Taylor Kerkham em conseguir encarar a comida não mais como algo negativo, prejudicial e tóxico e, sim, uma aliada do desenvolvimento. Para isso, foram necessários quatro meses de internação hospitalar e psicoterapia (ainda em curso). A mesma missão de recuperar a desnutrição grave dos pacientes infantis, impulsionada pela vontade das crianças de emagrecer a todo custo, é vivenciada por profissionais brasileiros.
Foto: Getty ImagesAmpliar
Obrigar o filho a comer alimentos que não conhece, sem estabelecer uma boa relação com a comida, pode ser o primeiro passo do transtorno alimentar
“O gatilho que provoca a anorexia nervosa na mulher adulta é o mesmo identificado nos adolescentes e crianças, sejam meninos ou meninas”, afirma o psicólogo especializado em menores de 18 anos Raphael Cangelli Filho, que atua no Ambulatório de Transtornos Alimentares do Hospital das Clínicas de São Paulo(Ambulim). Lá, ele já atendeu meninos de 9, 11 e 15 anos. “Eles (adolescentes) são tão influenciados por esse padrão estético magro quanto os adultos. É uma preocupação intensa, como se a magreza resultasse em sucesso”, define.
À BBC de Londres, os familiares de Taylor Kerkham disseram que o transtorno da recusa de comida começou quando os colegas de escola “brincavam” e chamavam o garoto de “gordinho” por causa do seus 50 quilos da época (um pouco acima do indicado para a sua idade). Foi o suficiente para despertar uma doente insatisfação com a forma física.
No Brasil, pesquisa do IBGE, divulgada no fim do ano passado, mostrou que as estudantes brasileiras também correm perigo para tentar “ficar” feliz com o espelho. Em uma amostra de 61 mil estudantes, foi identificado que 4.270 delas forçavam o vômito ou tomavam remédios para emagrecer (principal sintoma da bulimia). Todas tinham menos de 17 anos.
Pesquisadores de Minas Gerais e de Florianópolis, em estudos publicados no Caderno de Saúde Pública, identificaram que os sintomas de anorexia em meninos e meninas em idade escolar (13 a 15 anos) atingia a marca de 15,8% entre as quase 3 mil pesquisadas.
Influência dos pais
Ao mesmo tempo em que o motivo para buscar a diminuição do peso pode ser o bullying e a pressão dos colegas de classe, conforme mostrou levantamento publicado na revista Pediatrics,  Elaine Rocha de Pádua, nutricionista da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) - especializada em transtornos alimentares infantil - diz que as respostas para origem do problema com a comida pode estar na educação recebida pelos pais.
“Existe uma série de fatores que pode estar por trás da anorexia nervosa em meninos e meninas e um deles é a amamentação”, explica Elaine. “Se a mãe toda a vez que o filho chora dá o peito para ele, a criança cresce convicta de que só encontra conforto na comida. Isso pode torná-la, no futuro, uma comedora compulsiva e aproximar a bulimia ou a obesidade”, diz. “Da mesma forma, um período natural do desenvolvimento infantil é a chamada fobia alimentar. A criança (até os seis anos) tem medo de comer o que não conhece e forçá-la de forma abrupta a ingerir o alimento nessa fase pode resultar em transtorno alimentar futuro.”
Uma pesquisa da Universidade de São Paulo, recém divulgada, sugeriu mesmo que a anorexia pode ser hereditária. Para sustentar isso, o estudo mostrou que as mães de meninas anoréxicas, em geral, ou falavam muito de forma física ou obrigavam as meninas quando a crianças “a rasparem o prato” ou só brincarem depois de “comer tudo” ou ainda sofreram do transtorno quando mais jovens.
Elaine, da Unifesp, e Raphael Cangelli Filho, do Hospital das Clínicas, ressaltam que todas essas características fazem com que a cura para os transtornos alimentares na infância exija, necessariamente,  a participação ativa dos pais no tratamento. Existem casos que a anorexia pode indicar mais do que uma insatisfação com o corpo, mas algum problema sério como violência física, sexual ou psicológica.
Prestar atenção como o seu filho se relaciona como a comida, afirmam os especialistas, é a maneira mais fácil de reconhecer problemas e fazer intervenções rápidas. Depois de instalada, a anorexia tem de ser acompanhada pelos médicos para o resto da vida. 
Fernanda Aranda, iG São Paulo

Você sabe se seu filho é disléxico?


Dislexia pode dificultar o aprendizado do seu filho na escola, mas não quer dizer que ele não esteja interessado nos estudos


Se uma das maiores dificuldades do seu filho no início da vida escolar é alfabetizar-se, talvez o problema dele não seja somente falta de atenção. De acordo com a psicopedagoga Silvia Amaral, membro da Diretoria da Associação Brasileira de Psicopedagogia (ABPp) e coordenadora da Elipse Clínica Multidisciplinar, se processar as informações é difícil para ele, tanto na leitura quanto na escrita, é possível que ele seja disléxico.
A dislexia é um distúrbio que abrange uma disfunção específica da leitura, mas também pode afetar a linguagem como um todo, com manifestações também na escrita. “O cérebro deles funciona de forma diferente, então na leitura eles podem pular linhas e na escrita eles podem apresentar textos com troca de letras, por exemplo”, explica Amaral. Mas, segundo ela, estes são só alguns dos possíveis sintomas: “Nenhum caso é idêntico a outro, cada disléxico apresentará diferentes combinações de sintomas”.
O que causa e como reconhecer
Segundo Márcia Maria Barreira, psicóloga e coordenadora da Associação Brasileira de Dislexia (ABD), este problema é genético e, portanto, se a dislexia já existe no histórico familiar, a atenção aos sintomas deve ser redobrada. “Mas a base é de ordem neurológica”, afirma Amaral. De acordo com ela, o funcionamento do cérebro do disléxico ocorre por trajetos diferentes – e maiores – até chegar ao centro da linguagem, por isso a compreensão acaba prejudicada.
No entanto, existem muitos detalhes que devem ser analisados para diagnosticar uma criança com dislexia. “As crianças menores, por exemplo, começam a ter dificuldades para memorizar canções que aprendem na escola e, em livrinhos infantis, se interessam mesmo pelas figuras, e não pelo que está escrito”, afirma Barreira. A partir do momento que elas iniciam o processo de alfabetização, a especialista lembra que são necessários dois anos de estudo para diagnosticar o problema. “Antes disso, dependendo dos sintomas, a criança pode estar somente num quadro de risco”, explica.
E os sintomas podem ser vários: dificuldades para começar a falar, na coordenação motora e até mesmo dificuldades para ter uma boa memória de curto prazo. Mas, segundo Amaral, é preciso excluir alguns fatores para que a dislexia seja mesmo diagnosticada. “É preciso aplicar testes para ver se a criança possui uma inteligência adequada, por exemplo. Ela pode ter um rebaixamento mental e aí é outro problema”, explica. Além disso, problemas emocionais severos, como a psicose, podem apresentar sintomas parecidos. Se estes fatores forem descartados, então a dislexia pode ser o real motivo.
Como tratar
A partir do momento em que é diagnosticada a dislexia, primeiramente é preciso que haja um ambiente favorável para que a criança possa aprender a superar os sintomas. E se tiver um diagnóstico precoce, melhor ainda, para que problemas emocionais e sociais não se desenvolvam. “Os disléxicos podem ter um prejuízo emocional e acabar se achando crianças burras ou se tornando pessoas de baixa autoestima”, informa Barreira.
No entanto, não existe medicamento e o tratamento dependerá da idade da criança e das maiores dificuldades dela. Segundo Barreira, crianças menores normalmente são atendidas por fonoaudiólogos, por ajudarem mais no desenvolvimento com palavras e sons, e crianças maiores são atendidas por psicopedagogos, que trabalham mais na questão da compreensão e interpretação de texto. “Mas não é que eles precisarão de tratamento para o resto da vida”, completa.
“O clínico irá tratar a criança de acordo com os sintomas que ela possui”, afirma Amaral. Se ela possui uma dificuldade maior em se organizar, então serão trabalhadas estratégias de organização, por exemplo. “Ela será ensinada a lidar melhor com a leitura e a escrita e será conscientizada das facilidades que ela possui, para que compense as dificuldades”, explica. De acordo com Barreira, na medida em que vão sendo tratadas, as crianças passam a perceber os erros que cometem e passam a se corrigir.
Sem o tratamento e sem apoio familiar, o disléxico poderá ter um prejuízo no cotidiano em geral. “Vemos muitos adolescentes e adultos que acabam indo para as drogas e para o álcool. Começam a ter um desinteresse muito grande pela escola e podem até chegar a quadros de depressão, mesmo se forem crianças”, afirma Barreira. Segundo Amaral, até mesmo os pais tendem a ter um certo desânimo quando a dislexia do filho é diagnosticada. Mas não é bem assim que o problema deve ser encarado.
O disléxico e a família
“Normalmente os pais, quando descobrem que o filho é disléxico, logo falam que ele não vai poder escolher uma profissão, que não vai conseguir alcançar nada; e não é verdade”, afirma Amaral. Segundo ela, se quando adulta a criança tiver força de vontade e determinação, ela saberá contornar os problemas e poderá viver bem e ser o que ela desejar na vida. “Além disso, eu sempre gosto de dizer aos pais que muitas vezes os disléxicos possuem o lado direito do cérebro mais desenvolvido, então são pessoas que se dão muito bem na área mais visual e possuem bastante criatividade”, conta.
Veja abaixo algumas dicas de Amaral para que, desde pequena, a criança já possa começar a conviver melhor com a dislexia:
- Quanto mais estímulos ela tiver, melhor: proporcionar atividades e jogos diferentes em todos os momentos do dia desenvolve a atenção da criança;
- Sempre que estiver com ele por perto, converse e troque ideias: acrescente informações à vida dele;
- Leve-o ao teatro, ao cinema, ao museu, a lugares novos que podem estimular a inteligência e a atenção dele;
- Ter uma vida saudável com a prática de esportes também colabora para que ele esteja mais atento e, ainda, desenvolverá a noção corporal, como a coordenação motora.